terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Dois homossexuais passam.

Não houve um lado para nós, o comunismo dizia que éramos um vício do capitalismo, um sinal da decadência da sociedade burguesa e o capitalismo dizia – e esse argumento ainda persiste forte atualmente – que éramos antinaturais, que vamos contra o estado de natureza. Sozinhos, desabrigados politicamente, religiosamente, civicamente e moralmente, andávamos cautelosos nessa civilização construída com uma noção tão pequena do que é ser humano. Houve avanços, entretanto, ainda temos que lidar com a marginalidade, com o desprezo, com a sociedade canibal e consumista do canibalismo.

Eu, homossexual, ainda ando taciturno ainda que o dia brilhe. Demoro a decidir se pego a mão do meu amigo ou namorado, penso se me encontro forte o suficiente para encarar os olhares policiais, tortos e repressores, se me encontro inabalável o suficiente para ouvir um xingamento, e em última instância – mas não impossível, encarar o soco. Há várias maneiras de fazer com que duas mãos se afastem, eu as conheço, faço os cálculos e meço: eu tenho uma humanidade maior do que a existente, logo, eu pego essa mão e ando.

Os olhares se entortam logo que essas mãos se unem, algumas bocas se contêm, outras se espantam, então surge um vácuo no meio da rua cheia: dois homossexuais de mãos dadas abrem espaço. Homens e mulheres espantados, aquela senhora ali com o crucifixo pensando em rezar pelo fim dos tempos – mal sabe ela que já se encontra atropelada por ele: dois homossexuais passam e se amam. A civilização de cinco mil anos não entende nada, o frenesi atômico se forma com a presença alienígena, o pescoço da senhora apavorada sua, nossa senhora de aparecida, dois homossexuais se amam! Ouve-se o silêncio de pedreiros, balconistas, professores, alquimistas e pastores e vereadores...

Logo os dois homossexuais viram a esquina e o mundo, naquela rua, volta ao seu tamanho original.

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