quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

À Procura de uma Vida.

O céu poderia estar admiravelmente azul nesta tarde, mas não estava. A vida poderia estar inevitavelmente feliz, mas sobrou-lhe a angústia do que poderia ter vivido, e não viveu. As nuvens estavam amareladas, a nuvem de gás dos carros que passam lá fora desbotou o céu de hoje. O azul não cintilava e as nuvens não mais estavam iluminadas em branco, aquela tarde de verão estava febril, as paredes da fronte de sua casa estavam manchadas pelo tempo, sua casa já estava velha, assim como as rugas em seu rosto. A violeta balançava suavemente em cima da janela, agora que o vento decidiu aparecer. Nenhum passarinho no céu, ouvia-se apenas o ruído incompreensível de pessoas que passavam pelas ruas, uma vez ou outra, a buzina de um carro. O dia estava quente, o sol amarelava a cidade.

Na casa mais velha da vila, a violeta na janela, o cachorro que saía da varanda e debilmente ia deitar-se ao lado do sofá, em cima da mesa, tricô e agulhas, o ventilador no teto rangia, e a televisão sussurrava coisas inaudíveis. Os fantasmas da casa agora descansavam. A senhora já muito idosa debruçada na janela, seus cabelos brancos para trás, seu vestido de corte reto, seu chinelo de pano, na rua passavam agora dois casais de namorados, que se beijavam, acariciavam-se, o segundo, passou rindo de suas tolices particulares, abraçaram-se porque o amor nasce e morre no verão. A solidão é fruto do inverno, do vento frio, de tempos nublados. Olhava a senhora, então, angustiada, os casais que passavam. Os beijos úmidos, os abraços quentes, as carícias ternas, tudo isto atingia a velha em seu imo, em suas lembranças de todos os beijos que poderiam ter sido, e não foram. Lembrava-se que já esteve naquele lugar, porém agora, seus amantes são cinza que o vento assoprou para longe.

Atenta, percebe que da esquina, surge um grupo de crianças estridentes, conhecia a voz peculiar das crianças, era mais feliz, mais despreocupada, não se ouve o temor do próximo amanhecer, como se cada minuto fosse de crucial importância. As crianças corriam sem se preocupar com quem as visse. A gratuidade de correr incomodava-a. A felicidade gratuita das crianças, que agora passavam em frente ao portão principal, incomodava-a, de repente, na limitada moldura do portão principal, aparecera uma mulher mal-humorada, cabelos crespos, feia. Surgira com um pé de chinelo na mão que usava como instrumento de força, a felicidade gratuita incomoda aos mais infelizes. E as crianças, agora, seguiam de cabeça baixa, porém, até de cabeça baixa não conseguem esconder o seu sorriso. Da janela, a velha olha o dia.

O rangido monótono do ventilador, o cachorro fatigado deitado ao lado do sofá. Na mesa, duas agulhas grandes e linha de tricô rosa claro e azul claro. A televisão ligada na novela da tarde e mesmo com isto tudo – o silêncio. A violeta contorce-se toda; o vento apressa-se a entrar pela janela, invadindo a casa, perturbando seus fantasmas. O cachorro se encolhe, na televisão agora passam comerciais, o ventilador range mais forte, a senhora tosse – e o silêncio. Ela continua a olhar a vida lá fora, debruçada, agora não passa mais ninguém. Dentro de casa, tudo quieto, muito mudo. É meio-dia e o sol se vigora, o azul do céu se ilumina, mas a velha anoitecera por dentro.

Na calçada, agora, deita na sombra um cachorro doente e solitário. Vagarosamente, por cansaço e como se procurasse um canto para morrer, o cachorro carrega consigo várias cicatrizes na pele, muita fome, e desconsolação. A velha olha surpresa para o animal, e na sua última chance de felicidade – a velha late para chamar a atenção do cachorro. “Au, au, au, au” late a velha estridente. O dia quieto, a rua agora estava vazia, e ecoava pelo céu seu latido, como lembrança da angústia humana aos mais felizes. O seu cachorro desperta de seu descanso ao lado do sofá, mas limita-se a apenas olhar a velha desconfiadamente, como se perguntando por que a velha tanto se excedera, e volta a fechar os olhos. “Este cachorro mais parece um gato” a velha sempre resmungou.

No espaço sobrou apenas o eco do latido da velha. “Au au au au”. A angústia por não viver encontrou seu fim nos latidos da velha, que não se importou com quem a ouviria: precisava latir. Como que repetir para si mesma: ainda não morri. Como que gritar dentro de si: ainda posso gritar. Lá fora, o cachorro triste parou, procurou em volta de aonde vinha o latido e encontrou a velha. Olhou por uns instantes, seu débil olhar de quem não poderia dar atenção, a velha então viu que o cachorro a olhava e intensificou seu latido e sua penúria. Ele, então, por pena, desviou o olhar e continuou a mancar pela cidade.

Sobrou o silêncio. Ela logo parou de latir, decepcionada com o animal, com o mundo, fora abandonada até pelo cachorro manco e infeliz, engoliu mais uma vez, sua angústia. Voltou-se para a casa, para sua vida que pulsava como o incômodo gotejar de uma torneira. E ali estava, a violeta na janela, o cachorro deitado ao lado do sofá, o tricô na mesa, o ventilador rangente, a televisão ligada e a velha à procura de uma vida.

4 comentários:

Anônimo disse...

Eu aqui, escutando o rangido do meu ventilador, com meu cachorro dormindo aos meus pés, sentada entre fachos de luz que ultrapassam minhas cortinas, escutando somente um rangido ao longe, quase me confundo com essa velha. Mas, de tudo, somente consigo pensar: nossa, a solidão nunca foi tão bonita.

Lindo.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Lindo!

Pedro disse...

Um retrato cromático, sonoro, sensorial da solidão. Ecoo: "lindo".